segunda-feira, 29 de agosto de 2011

UMA ROSA PARA A PROFESSORA

Havia uma rosa no cabelo, no vestido, sobre o birô da professora. As pétalas soltas tingiam de rubro a madeira lisa, escura, tamanho o zelo pelo ambiente de trabalho, qual extensão do próprio corpo. Dele exalava a mistura de cheiros do óleo de peroba e de rosa.
            Ninguém ousava macular aquele móvel que parecia sagrado. Por trás, o quadro negro; nele, escrito em letras cursivas, arredondadas, simétricas, a frase: Bom dia! Sob a escrivaninha, viam-se os lustrosos sapatos pretos da professora em suaves movimentos excitando olhares logo dispersos, reprimidos do desejo incestuoso para com a representação do imaginário de mãe e musa.
            O mais ousado era ser o príncipe do conto de fadas da Cinderela e encontrar, perdido, o sapatinho da professora; talvez ganhar-lhe simpatia, ou um singelo beijo. Eis a intenção de um aluno edipicamente enamorado que pulava ao tentar alcançar uma rosa pendente sobre o muro, sujar a farda de cal, arranhar mãos e braços, até conseguir arrancar um botão vermelho tal o sangue que brotava da mão furada por espinhos.
            Sensação de infinito era quando se olhava para o alto, pois a rosa parecia estar dependurada no céu, a desafiar corações arrebatadores. O esforço heroico contentava-se com um pequeno resultado, fruto de um enorme sentimento, o jarrinho de porcelana branca, manchado; dentro, um pequeno botão em fragrância adornava a sala de aula.
            Havia mil rosas no coração da professora; roubaram-nas com os sonhos. Sem eles não há esperança, o trabalho transforma-se numa atividade depressiva, resume-se na relação de trabalho-pão-trabalho, resultando numa educação maçante e desmotivadora.
            O novo paradigma não fecha o círculo; deixa uma abertura para a criatividade na seguinte relação de trabalho-pão-e-poesia, eis a educação livre e criativa que transcende institucionalismos reacionários e entrópicos da superestrutura do poder, tal qual o vigiar e punir, cujo exemplo encontra-se no excelente artigo do Ilmº professor da rede estadual de ensino, Dickson de Medeiros Sales, editado no Jornal de Hoje, a 20 de Julho do corrente ano, com o título: A Greve, o Judiciário e o Professor Jumentinho.
            Nesse artigo, o professor indigna-se com a metáfora chula de um desembargador, que vilipendiou a nobre categoria dos professores, comparando-os a jumentinhos, afirmando que desde criança era contra a greve. Por ele, os educadores não deveriam receber os seus salários. Quanto maquiavelismo!
            Há uma tradição judaica que diz – O professor é mais importante do que um pai. Em nossa tradição nordestina, as boas famílias ensinavam a respeitar os mestres, considerá-los pais ou mães. Pobres dos que não os veneram; desrespeitam-nos e, com nababos vivem da injustiça.
            Haja luz nas trevas jurídicas potiguares. Não era sem razão que Santo Agostinho qualificava os Estados de “magna latrocínia”. É preciso afirmar, o rei está nu, dito não por uma criança ou bufão, na famosa expressão de Calderón; de La Barca: Ao rei, tudo, menos a honra. Não precisa ter a estatura intelectual de um Calderón, basta a estatura física dos comuns dos mortais, a sensibilidade para indignar-se.
            Pedagói, escravo, professor, na infância da civilização grega, onde se originou a etimologia do substantivo professor, essa era uma profissão exercida por escravos. Infelizmente, há quem veja a realidade contemporânea com o olhar da infância da civilização ocidental greco-romana, ache que professor é escravo; o estado, único ente de direito.
            Miopia maior é conceber o mundo com o olhar da própria infância, a qual corresponde à fábula oriental do cego e o elefante, que de tanto tatear os membros do animal, nunca chegava a compreender o todo. Entender o todo é compreender as causas e as consequências, foi o que fez Moisés, ao liderar a primeira greve de pedreiros escravos no Egito, levando-os à libertação do cativeiro, sob a orientação de Deus.
            Aristófanes, 450 anos a.c., usou a temática da greve com a sua personagem Lisístrata, que fez a primeira greve de sexo da história, para evitar o recrutamento de jovens para a guerra do Peloponeso, entre Atenas e Esparta. Sem falar nos bebês, que fazem greve contra o silêncio para serem alimentados; daí a velha expressão tão conhecida: “Quem não chora não mama”. Há também os que mamam sem chorar. Não são crianças, mas adultos glutões contra tudo o que é do povo.
            Foi por compreender a história e o direito, que o historiador romano Tito Lívio, 59 anos a.c., legitimou a luta contra a opressão, ao afirmar que as armas são sagradas para quem delas necessita.
            Ser contra a greve é ir de encontro ao universalismo que rege as constituições dos países democráticos. Seria retroceder à Grécia antiga, no poder dos trinta tiranos. Dâmocles, com a espada em punho, arrebatada da deusa Themis, seguindo as ordens do “deus” Thiresias, a fechar ágoras, calar vozes, derramar sangue.
            Há quem tenha saudades de um passado recente, tenebroso, que enlutou a vida política brasileira, com os seus Dámocles e Thiresias. O ovo da serpente foi chocado para eclodir a falsa aurora, em que não há uma rosa no cabelo, no vestido, no birô nem prenda de botão de rosa.
            Sem metáfora, sob o sapato cor de rosa da professora, uma rosa esmagada a tingir o chão; na alma agitada, quais trigos de Van Gogh na “Tempestade”, vislumbra-se o poema de Gertrude Stein: uma rosa é uma rosa é uma rosa.
            Trágico. A rosa que não é rosa!


Edilson Freire Maciel
Articulista

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

#FORAMICARLA: A INDIGNAÇÃO DO POVO POTIGUAR


No decorrer dos últimos dois anos de nossa cidade, chegamos ao auge do desgoverno, nunca se viu na administração pública natalense, tamanha incompetência e descaso com os demais serviços públicos. A Prefeita eleita em 2008, Micarla de Sousa do PV, insiste que a cidade é sua propriedade particular, onde só ela e sua cúpula de corruptos (inclusive, muitos deles vereadores envolvidos na operação impacto e ainda impunes) podem beneficiar-se dos recursos públicos e que seu mandato é um cheque em branco e que todos(as) os(as) natalenses terão que se sujeitar ao abandono e a espoliação por parte dos seus representantes, uma vez que os elegeram “democraticamente” pelos seus votos na última eleição.

Nós, povo Natalense, estamos condenados em nosso dia-dia a inaceitável constante violações de direitos: as nossas crianças e jovens enfrentam grandes dificuldades para ir e se manter nas escolas, visto que não existem vagas, nem professores(as) suficientes,  e nem condições de trabalho adequadas. Muitos alunos frequentam as escolas apenas para se alimentarem e mesmo assim, muitas vezes se frustram com a falta de merenda; o transporte “púbico” é uma vergonha, somos obrigados(as) a utilizar ônibus lotados, que demoram a passar, em paradas sem o mínimo de segurança, com o preço da passagem caríssimo e abusivoAZ\X, acima das tarifas nacionais de transporte público; quando ficamos doentes, temos dificuldade em encontrar postos de saúde que funcionem de maneira eficiente, com remédios, médicos(as) e enfermeiros(as) em número que garanta um bom atendimento; Nossas ruas, embora de diferentes localidades, convergem em pontos comuns: lixo por todos os lados e buracos por todas as partes; Vivemos aflitos com a gritante falta de segurança, assaltos e homicídios fazem parte do nosso cotidiano; A juventude ociosa: sem emprego, sem lazer, sem esporte e sem cultura torna-se presa fácil do crime e do tráfico de drogas.

Chegamos a uma situação calamitosa, onde aquele(a) que não têm condições econômicas para comprar e garantir os seus “direitos” estão morrendo antes de ter finda sua existência, pois viver não é apenas acordar a cada dia, mas sim ter uma existência digna e saudável, no gozo de seus direitos fundamentais. Nossos representantes eleitos, tal como a prefeita Micarla de Souza, não se sensibilizam com a degradante situação, pois não se colocam na condição de igual com aqueles(as) que a elegeram, pelo contrário, incorporam o princípio da falsa superioridade e usam da máquina estatal exclusivamente para garantir seus privilégios e interesses particulares, esquecendo ou deixando de lado o bem-estar coletivo. A atual gestão municipal bate rercord em quebra de licitações, troca de secretários e escândalos. Contratos de aluguéis superfaturados, copos descartáveis a preço de louça imperial, lavanderia pública fictícia e zoológico imaginário fazem parte da gama de escândalos rotineiros. 

Por outro lado, no falacioso mundo mágico da borboleta, produzido pela mídia publicitária da prefeitura, arcado com excessivos gastos de dinheiro público, vivemos em uma Natal da fantasia, em que tudo é lindo e maravilhoso, onde toda a população está satisfeita com as suas ações fictícias, uma vez que todos(as) os cidadãos(ãs) têm o pleno acesso a segurança, saúde, moradia, lazer, cultura e educação de qualidade, visto que a prefeita “trabalha aqui e trabalha agora”.

Entretanto, voltando ao mundo real, dos que soam e sangram, dos estudantes, dos trabalhadores(as), daqueles(as) que têm que trabalhar duro para garantir o pão de cada dia, nesse mundo real marcado pelas desigualdades, injustiças e exclusão social à insatisfação do povo natalense com a atual administração municipal cresce de forma exponencial, produzindo um sentimento de revolta e indignação no seio do povo potiguar. Estamos em um momento de intensa reflexão crítica, sobretudo, naqueles(as) que elegeram a atual prefeita no 1ºturno, que agora se perguntam se realmente votaram certo e, se não, como fazer para acabar com esse tormento.

Diante de tamanha incompetência, falta de seriedade, falta de responsabilidade e falta de compromisso com aqueles(as) que a elegeram, surgiu legitimamente o movimento #FORAMICARLA: na luta pela dignidade do povo potiguar, inspirado no espírito do tempo mundial de desmoralização da democracia representativa, as palavras de ordem ecoam tanto aqui como lá no Egito, na Espanha, no Chile, na Grécia e por todo o planeta: “ELES NÃO NOS REPRESENTAM!”

Organizado e articulado, principalmente, pelas redes e mídias sociais, o movimento #FORAMICARLA ganhou força nos ciberespaços e evoluiu rapidamente. De forma irreverente, marcado pela horizontalidade, pluralidade e auto-gestão o Movimento uniu trabalhadores(as), estudantes, apartidários e partidários, socialistas e anarquistas, “istas” e “não istas”, estimulando a construção de uma consciência crítica entre as pessoas, numa militância plenamente pacífica e cidadã. Rompeu significativamente com a apatia e a inércia do povo natalense. A quem diga que para entrar no Movimento “basta um pulo, e quem não pula quer Micarla”.

O #FORAMICARLA de maneira espontânea ganhou as ruas. O primeiro ato aconteceu em frente ao shopping Midway, no dia 25.05.11, superou as expectativas, com aproximadamente duas mil pessoas, mostrou a grande força por parte do Movimento nascido na internet. O segundo ato foi ainda maior, no dia 01.06.11, uma grande marcha num percurso de aproximadamente 10 km com mais de duas mil pessoas pelo asfalto no complexo viário. Já o terceiro foi decisivo, dia 07.06.11, diferente dos atos passados, ocorreu durante o dia, pela manhã, na chuva, com bem menos pessoas, contudo, esse ato gerou um dos episódios mais marcantes da história de luta do nosso povo guerreiro, a ocupação na sede do Poder Legislativo, que ficou conhecida como acampamento “Primavera sem Borboleta”.

Foram 11 dias de muita luta, suor, lágrimas e glórias, provando de fato que a Câmara Municipal é a casa do povo, que quando é preciso o povo vem e fiscaliza. O acampamento tinha como lema “ocupar, resistir e produzir” e era organizado em várias comissões (jurídica, segurança, comunicação, cultura, limpeza, financeira, alimentação e outras). Os primeiros gastos do acampamento quanto alimentação foram custeados pelos próprios acampados, mas rapidamente a sociedade (sobretudo os sindicatos, professores(as), estudantes, trabalhadores(as), MST e MLB) se solidarizou com os companheiros(as) de luta. O objetivo do acampamento na Câmara Municipal de Natal era exigir que os vereadores cumprissem o seu dever constitucional de fiscalizar o Poder Executivo. O #FORAMICARLA exigia como pauta principal uma Comissão Especial de Inquérito limpa e transparente, que não violasse o art. 37 da nossa louvável Constituição Federal de 1988.

Inicialmente, as mídias burguesas com o intuito de dar manutenção aos interesses daqueles que os financiam, tentaram sabotar a todo custo o Movimento #FORAMICARLA, distorcendo e omitindo as informações acerca dos reais acontecimentos do acampamento, chegando até a implantar drogas na ocupação para ferir a reputação do Movimento. Contudo, se os jornais tradicionais são dos políticos e “poderosos”, o twitter e as demais redes sociais são nossas. Não demorou muito para o “Primavera Sem Borboleta” ganhar todo o apoio da população Natalense e repercutir por todo Brasil, ganhado até edição diferenciada em revistas de grande comprometimento com a verdade, tal como a Carta Capital que destacou em sua matéria “Primavera Potiguar” o #FORAMICARLA como um dos movimentos sociais, nascido na internet, mais expressivos do país.

Depois de esgotar todas as possibilidades de usar a repressão e truculência policial com os manifestantes, os vereadores tiveram que ceder após decisão do STJ e assinar acordo com os membros do acampamento na presença do Ministério Público Estadual, OAB e Conselho Estadual de Direitos Humanos, atendendo todas as reinvindicações do Acampamento Primavera Sem Borboleta.

Essa vitória do povo potiguar foi uma simples amostra do poder popular, que mostrou aos descrentes da luta que vale a pena lutar, pois nesse episódio o(a) cidadão(ã) comum provou que também é protagonista de sua história, que fatores condicionantes não são poderes determinantes, que a realidade é essa, mas poderia ser outra bem diferente. Como dizia o grande sábio Paulo Freire: “O futuro não nos faz, nós é que o nos refazemos na luta para fazê-lo”.

A luta, portanto, continua. Mas agora, sabemos na práxis que “o povo unido jamais será vencido”, juntos andamos bem melhor. Nesse momento a Primavera Potiguar encontra-se nos diversos bairros da cidade, ouvindo aqueles que realmente aprendem pelas vias do corpo, sentido todo esse desgoverno na pele. O #FORAMICARLA tem a clareza e a consciência que existem outras lutas a serem travadas, algumas muito mais difíceis que esta na qual estamos engajados, pois não basta tirar Micarla, Paulinho ou Edivan Martins, vai além, a luta é por uma nova sociedade, sobre novos alicerces ideológicos, sem opressores nem oprimidos, em que os homens e as mulheres possam caminhar como iguais que são, e que possam ser respeitados pela condição natural de ser humano portador de dignidade, e não meramente por sua condição econômica como o que está posto hoje.

Nesse sentido, convocamos todos(as) os(as) que sentirem-se contemplados(as) pelas palavras e pelas ações do #FORAMICARLA a juntarem-se a nós, numa militância plenamente cidadã e democrática, na luta por nossos direitos, pela livre expressão de idéias, na denúncia contra as oligarquias, contra qualquer tipo de discriminação, injustiça, exploração e opressão, pois “ATÈ QUE TUDO CESSE, NÓS NÂO CESSAREMOS”.

Atenciosamente,

Gregório Bezerra Silva

Graduando do 5º período de Direito na UFRN
Coordenador de Articulação Política do Centro Acadêmico Amaro Cavalcante
Membro do programa em direitos humanos Lições de Cidadania.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Eu me organizando posso desorganizar

            Depois de um bom tempo de apatia política a juventude natalense insurge no cenário político local se propondo a discutir e intervir no rumo que a Capital Potiguar deve tomar. Motivada pelo descaso, além das várias denúncias de corrupção que assolam o governo da Prefeita Micarla de Souza (PV), a qual passa por um momento muito delicado, haja vista o total fracasso de sua gestão, facilmente identificado pelo mais desatento olhar de qualquer leigo. Em conseqüência têm-se não só a organização dos jovens, mas também a pressão política de partidos de oposição, de sindicalistas, não esquecendo aí, apesar da cultura política local ser passiva, a participação da sociedade civil como um todo, que cobra do governo Micarla uma postura mais humana e participativa com intervenção eficaz e inovadora, como assim havia sido prometido na época da campanha.
            Nesse contexto de mobilização popular, os jovens que, diga-se de passagem, representam em boa parte a classe média natalense, articulam uma “nova forma de lutar por seus direitos” e, de levar toda essa motivação as classes menos favorecidas. Aqueles que historicamente são excluídos do processo de discussão política. É bem verdade que no início desse debate surgido nas ditas redes sociais: Twitter;  FaceBook; Orkut e Blog´s, acreditava-se na inauguração de uma nova forma de se fazer política,  cuja prioridade forjava-se na horizontalidade, na democracia real e no coletivo, em si, como instrumentos de organização e deliberação do movimento instituído.
            A principio, já visualizava que esse movimento, que se propunha enquanto um instrumento mobilizador das massas populares da cidade, era na verdade um movimento apaixonado pelo o que se via nas linhas gerais de sua essência e efervescência: “a luta contra Micarla” e, assim sendo, com este único propósito, objetivava a conquista de corações e mentes desembocando na mobilização das camadas mais pobres da nossa sociedade potiguar. Erro notório! Entretanto, sabiamente os participantes do #foramicarla sentiram a necessidade de aglutinar e expandir mais as informações, dizer a sociedade o porquê de tantos jovens irem às ruas semanas seguidas culminando na ocupação da Câmara Municipal da Cidade e fazerem tanto barulho. Importa lembrar que esse movimento, ainda que, com muita dificuldade, conseguiu romper barreiras tradicionalmente impostas à juventude. O #foramicarla mostrou que a causa pode superar picuinhas como a participação conjunta de juventudes partidárias, apartidárias e anarquistas debatendo e construindo alternativas possíveis e viáveis para a organização da luta popular.
            A partir de então, verificou-se o que poderíamos chamar de “choque cultural”, e como dito acima, esse movimento com a cara da juventude classe média, indignada, por, pela primeira vez, sentir-se atingida pelo total descaso do poder público local. Ressaltando que não se trata do descaso com o social, antes, pelo contrário, se trata de descaso estrutural, que vai desde ao não calçamento de ruas, passando por inundações nos bairros nobres e buracos no asfalto, os quais atrapalham, por vezes, o fluxo de veículos no trânsito, além de ocasionarem furos nos pneus, quebra e/ou empenação de eixos dos carros da nossa classe média. Todavia, com o choque cultural através da aglutinação das várias juventudes já citadas, o cenário das indignações foi se transformando, se desprendendo das necessidades puramente individuais que estavam em jogo.  Com o advento das manifestações, bandeiras de lutas foram se agregando à luta desses jovens, como exemplo a CEI dos contratos, além de se pautar a construção da mobilização dos setores e áreas potiguares mais vulneráveis como as zonas norte e oeste da Cidade.
             O movimento ora falado, visivelmente, levou muito tempo para conseguir chegar até as camadas mais pobres, não sendo preocupação desse texto as diversas justificativas que levaram a essa intempestividade, ao contrário, esse ordenamento de palavras busca tão somente destacar e aplaudir a possibilidade concretizada de registrar experiências marcantes de pessoas que nunca tinham “atravessado a ponte” e após tal ação possibilitada pelo movimento, afirmar que depois do ato ficaram apaixonadas pela Zona Norte, que se impressionaram com a receptividade desse povo tão sofrido que encantam com os relatos e a vontade de também abrir sua garganta e soltar o seu protesto somando-se ao movimento, que dessa vez assume outro viés. 
Até então, só se falava em buracos, CEI´s e #foramicarla. Agora já se ouve: onde estão os postos de saúde? Porque estão fechados? Onde estão as escolas prometidas? Reivindica-se também segurança e habitação, se denuncia os conselhos corruptos que não articulam nada em benefício de suas comunidades, a falta de transporte digno e etc. O que se vê de fato, atualmente no movimento é a inversão de valores em que se pauta como central a questão das políticas públicas de qualidade com foco na dignidade da pessoa humana a partir de uma sociedade mais justa e igualitária, em que se prioriza a discussão dos problemas sociais partindo das necessidades das classes mais populares até às das classes médias.
            Destarte o avanço identificado ao longo do processo por que passou o movimento, alguns vícios ainda precisam ser extirpados, quais sejam: a realização de atos de cima para baixo em comunidades em que não se conhece a realidade cotidiana vivenciada por seus habitantes; a visão equivocada de que tudo tem que ser definido em plenárias constituídas em sua maioria por aqueles e aquelas que tiveram condições objetivas e subjetivas de acamparem na Câmara Municipal de Natal; o entendimento errôneo de que o #foramicarla nada mais é que o somatório irrisório daqueles e daquelas que articulam tais plenárias e a falta de entendimento, por vezes, ainda que não tão freqüente, da importância de nesse momento aglutinar todas as frentes de luta como sindicatos, juventudes partidárias, juventudes não partidárias, estudantes, trabalhadores e trabalhadoras da cidade, sociedade civil organizada em torno de uma pauta unificada.
 A guisa de conclusão, imprescindível se faz compreender que o movimento que surgiu no berço da classe média, não só pode como deve assumir novos horizontes, chegar à boca do povo, se unir as necessidades mais diversas do povo natalense. A concretização dessa realidade passa por assumir uma nova plataforma política, que exclua os oportunistas que tentam de forma camuflada se apropriar do movimento e construa uma cultura diferente em que possibilite a participação popular, que desperte nas pessoas que antes só viviam para o trabalho na busca de suprir suas necessidades imediatas a crença na importância de se organizar e lutar,  pois, como bem diz Chico Science eu me organizando posso desorganizar, e só assim organizados, conseguiremos desorganizar toda essa sujeira que há muitos anos assola nossa cidade. O movimento não pode ter como objetivo central derrubar Micarla, pois existem vários picaretas nessa cidade iguais ou até piores que ela, estando apenas a postos, à espera de sua vez para detonar a cidade e os interesses do seu povo. A luta tem que ser proposta na perspectiva da construção de uma nova cultura política, que consiga contribuir para a livre organização nos mais diversos setores da sociedade e que dessas organizações surjam as correlações de forças necessárias para as mudanças que precisamos.      

Altanir Morais, 25 anos, morador da ZN, ex dirigente da UBES, APES e UMES

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Próximos passos


PLENÁRIA DO MOVIMENTO #FORAMICARLA:
Quando: Terça-feira 21/06/2011 (amanhã), entre das 18hs às 21hs

Onde: no auditório da IFRN Midway

Objetivo: organização das próximas atividades do movimento


5° ATO #FORAMICARLA:
Quando: Quarta-feira 22/06/2011 (depois de amanhã), das 15hs às 18hs

Onde: Concentração na Praça Cívica e deslocamento até a Câmara dos Vereadores

Info: Após 11 dias de ocupação na Câmara Municipal de Natal, o movimento conquistou uma Audiência Pública e a garantia da Instalação da Comissão Especial de Inquérito (CEI), que investigará os contratos da gestão de Micarla de Souza. 

A instalação da CEI só poderá ser feita numa sessão plenária na quarta-feira (22/06), momento que o presidente da Câmara fará a leitura do documento que instaura a CEI oficialmente.

O movimento reconheceu esta conquista, mas compreende que a luta está apenas começando. Portanto, um novo ATO será realizado neste dia com o objetivo de fazer pressão para a CEI ser de fato instalada e para colocar o movimento #foramicarla nas ruas. 

Infelizmente, não podemos confiar nos parlamentares. Ao longo de nossa ocupação eles descumpriram todos os acordos firmados com o movimento e a OAB, o que nos leva a crer que eles podem não cumprir o acordo de instauração da comissão também.
Já compreendemos que somente a LUTA garante DIREITOS! Faremos PRESSÃO POPULAR!

sábado, 18 de junho de 2011

Carta aberta do Movimento #ForaMicarla - reflexões sobre as primeiras batalhas


O #ForaMicarla surgiu da insatisfação do povo natalense com a atual administração municipal. Inicialmente os canais de expressão desse sentimento eram os que estavam mais ao alcance de quem tem uma rotina cheia de trabalhos e estudos: as conversas entre amigos e com a família, os comentários nos ônibus lotados e os fóruns ou murais eletrônicos das mídias sociais.

Mas a participação política, por mínima que seja, pode gerar elevação do nível de consciência. Muitos desses(as) cidadãos(ãs) perceberam que era preciso fazer algo mais. Ganhar as ruas. Denunciar uma realidade que não aceitamos e anunciar tempos melhores no horizonte. Dizer que é possível chegar longe através de uma ação política pacífica,plural, não-violenta, democrática, horizontal e autogestionada.

Descobrimos que não estamos sós e temos muita força quando estamos juntos. Foi preciso superar a noção de que protestar é uma coisa fora de moda, que não gera resultados, que é coisa de gente baderneira. Rasgar o véu do individualismo, do consumismo, do imediatismo.

O primeiro ato foi uma experiência reveladora, mas não se vislumbrava aonde era possível chegar. O segundo foi um rito de passagem - quem, das duas mil pessoas presentes, não sentiu a doce estranheza de caminhar pelo asfalto do complexo viário? Já o terceiro ato foi um desafio: durante o dia, pela manhã, na chuva; estávamos em número reduzido, mas cumprimos o roteiro até o fim. E, nesse momento, o que pra alguns era apenas algo que se via na televisão, tornou-se perfeitamente realizável. Pois havia ali, bem na nossa frente, um pátio convidativo. Um ponto privilegiado para cobrar os parlamentares que deveriam fiscalizar as ações da prefeita. Fixamos acampamento. 

Estamos no décimo primeiro dia do "Primavera Sem Borboleta". Sofremos diversas formas de pressão, às vezes com grande intensidade. Essa pressão nos aproximou.

Experimentamos uma forma de organização coletiva que buscou a libertação de vários males do convívio social ao qual estávamos acostumados(as). A convivência nos uniu fraternalmente, apesar da pluralidade de pensamentos e práticas. Nos tornamos uma comunidade. Ocupamos, resistimos e produzimos. 

O apoio da população nos forneceu a energia necessária para continuar. Tanto materialmente (nas diversas formas de doação) quanto espiritualmente (o carinho e o encorajamento que nos foram transmitidos com muita frequência). O apoio dos mais diversos movimentos sociais, desde centrais sindicais a grupos do movimento estudantil, nos lembrava constantemente o fato de estarmos inseridos(as) num processo muito maior. E o apoio da OAB foi crucial nos momentos de maior vulnerabilidade, e no enfrentamento contra os que queriam usar as forças do Estado contra a nossa ocupação pacífica - mesmo ela sendo reconhecidamente legítima e amparada pela Constituição. Além disso, e a despeito da ausência dos vereadores, das ordens para que os funcionários não viessem trabalhar e da ordem para manter o portão frontal fechado, comprovadamente não impedimos a realização de qualquer tipo de trabalho no Palácio Padre Miguelinho. 

A decisão do Superior Tribunal de Justiça, que nos foi favorável e nos salvou de uma desocupação iminente, chegou no momento em que trabalhávamos os detalhes da nossa resistência pacífica. O que se viu então foi uma explosão de alegria genuína. Centenas de pessoas festejaram cantando o Hino Nacional sem cerimônia, uma catarse que muitos(as) lembrarão pelo restante de suas vidas. 

Eis que chegamos a mais um momento vitorioso. Os vereadores da Câmara Municipal finalmente desistiram de usar a arbitrariedade e a falsidade contra o nosso movimento. Segundo algumas pessoas eles buscaram inspiração no nosso acampamento, pois ontem reuniram-se e decidiram uma proposta coletivamente. Só faltou a transparência, mas oportunidades não faltarão pra que eles tentem esse outro princípio também. Na proposta que nos foi apresentada, apesar de haverem alguns erros elementares de redação, comprometeram-se com a realização das demandas que apresentamos neste momento da luta. A audiência pública e a instauração de uma CEI dos Contratos da atual gestão (se for conduzida de maneira eficiente e isenta) tornarão possível o surgimento de provas que abram o caminho para saída de Micarla de Sousa da prefeitura de Natal. Evidências não faltam para guiar os trabalhos. 

O #ForaMicarla, portanto, continua. O nosso caminho ainda pode ser longo e tortuoso. Mas agora, companheiros(as) que somos, andamos melhor. Sabemos que existem outras lutas a serem travadas, algumas muito mais difíceis que esta na qual estamos engajados. Não devemos temer, pois encontraremos amparo nos ombros de gigantes. Todas as pessoas que lutaram e lutam por uma sociedade justa, que dignifique plenamente a condição humana. 

Conclamamos todos(as) os(as) que sentirem-se contemplados(as) pelas nossas palavras e ações a juntarem-se a nós. A participação política, a militância cidadã, a livre expressão de idéias, a denúncia contra as oligarquias, contra a exploração e o desrespeito estão ao alcance de todos e todas. 

Da inércia para o movimento basta um pulo. E quem não pula quer Micarla.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A primavera virá sem a borboleta


Espalhem essa foto aos quatro ventos, pois carrega em si a mensagem de que a maior esperança para a construção de um outro mundo possível reside na rebeldia das cores e flores da juventude. Escutemos uma vez mais Paulo Freire "não é na resignação, mas na rebeldia em face das injustiças que nos afirmaremos".

A luta apenas começou.

Movimento #foramicarla
Acampamento Primavera Sem Borboleta

Carta de resposta ao documento “Desagravo a nós mulheres” dirigido às manifestações do movimento #FORA MICARLA


Nós, integrantes do acampamento “Primavera sem borboleta”, vimos publicamente nos manifestar em resposta à notícia publicada no site oficial da prefeitura do Natal, na data de 15 de junho de 2011, intitulada “Grupo de 300 mulheres faz ato de desagravo a prefeita Micarla de Souza”. Na citada notícia, é relatado o fato de um grupo composto por 300 mulheres ter redigido e assinado um documento de repudio às manifestações contra a prefeita Micarla de Souza, chamado “Desagravo às mulheres”.

Compreendemos que nossas críticas não se direcionam a pessoa Micarla de Sousa enquanto mulher, mas a má administração pública que ela e seus aliados vêm exercendo na cidade do Natal. Acreditamos que as mulheres devem, SIM, ocupar espaços de poder, devem SIM buscar autonomia e reconhecimento e devem SIM executar projetos políticos que garantam direitos sociais para os trabalhadores e trabalhadoras tanto no plano institucional, como não institucional.

Declaramos que o #ACAMPAMENTO PRIMAVERA SEM BORBOLETA é um território livre de sexismo, onde compartilhamos de forma paritária todas as comissões e atividades. Concordamos que deve ser denunciada, enfrentada e eliminada qualquer prática de violação de direitos humanos das mulheres, e de todas as minorias. Por isso procuramos direcionar dentro do acampamento ideais e práticas que visam emancipação de homens e mulheres e esse é um dos motivos de nos somarmos ao Movimento #FORA MICARLA. 

Não concordamos com o discurso que relaciona a ingerência da gestão de Micarla de Sousa com o fato de ela ser mulher. Inclusive, repudiamos e criticamos a forma como em sua campanha foi exaltado e utilizado o fato de ela ser mãe e esposa, preocupada em cuidar da cidade. Nossas criticas não são personalistas, mas querem sim apontar as irregularidades e ineficiências que a população vem observando.

As mulheres que estão prestes a dar a luz a uma criança se deparam com as más condições em que se encontra a maternidade Leide Morais do bairro Nossa Senhora da Apresentação, se deparam com a inatividade de inúmeras creches, com a inexistência de suficientes Casas de Apoio, com a falta de medicamentos nos postos de saúde, com aumento no valor das passagens no transporte público. São as mulheres que assumem o cuidado de crianças e idosos e são as mulheres que majoritariamente utilizam o transporte público.

A má administração de Micarla de Sousa, prefeita, mãe, esposa, jornalista e residente na cidade do Natal, atinge diretamente a vida das mulheres natalenses que lutam para criar seus filhos, administrar uma casa, administrar a vida pessoal e profissional e as barreiras do dia-a- dia de ser MULHER.

Atenciosamente,
  Integrantes do acampamento “Primavera sem borboleta” – Movimento #foramicarla