Primavera sem borboleta: O teatro do oprimido é o título do documentário em produção sobre os movimentos sociais em Natal que pedem o impeachment da prefeita Micarla de Sousa.
Enquanto o documentário segue em produção, é possível ver um pouco dos momentos marcantes da luta da população para que os seus anseios sejam materializados.
Trata-se de material inédito, registrado in loco durante os 11 dias de ocupação da Câmara Municipal do Natal.
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quinta-feira, 20 de outubro de 2011
sábado, 8 de outubro de 2011
Árvores com olhos de Mulukurunda
por Edilson Freire Maciel
Natal amanheceu poluída, com olhos assustadores, de expressão histérica, pendurados em algumas árvores nos pontos estratégicos da cidade. Essa simbologia tem como objetivo a proteção das árvores, querendo significar uma admoestação: Estou de olho! Parece-nos um tanto aborígine quanto a sua forma de comunicação. Faz-nos relembrar Mundo Cão, o famoso documentário italiano dos anos 60, em que os primitivos da Papua Nova Guiné construíam com arbustos algo semelhante a um avião, no intuito de atraí-lo. Assim funcionam os olhos maus de mulukurunda, que estão pendurados em nossas árvores em relação às novas tecnologias. Em Paris, uma das capitais mais arborizadas do mundo, diferentemente daqui, não há simbologias poluidoras penduradas nas árvores, mas sim chips que as monitoram, socorrendo-as em caso de acidente ou doença, protegendo-as quanto a possíveis agressões.
Nos países desenvolvidos, a lógica do pragmatismo tecnológico e da política propositiva é uma realidade, porque assim o é, porque o povo quer. Diferentemente dos paises periféricos em que, por falta de solução dos problemas, apela-se para a verborragia, o sofisma e a metáfora. É o discurso dos bacharéis, das barrigas jornalísticas, transferido para a oratória já obliterada, cansada de tanto – blá – blá – blá, ainda que cause esperança aos incautos.
Cada vez mais aumenta os paradoxos, as dissociações nos países alijados do centro de poder, ao ponto de já nos conceituarem de Belíndia, uma fusão de Bélgica e Índia, tamanho o contraste social existente em nosso país. Esse contraste social nos leva aos graves erros de julgamento, de atitudes descentradas, desfocadas da realidade, em surto socioesquisofrênico. Apesar de vivermos em pleno mundo globalizado, das intercessões econômicas, financeiras e tecnológicas, é incongruente, inócuo e ridículo prescindir da tecnologia dos olhos eletrônicos para substituí-la por olhos de mulukurunda.
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
O Reino de Elefantina
por Edilson Freire Maciel
O reino de elefantina fica assim, num lugar em que o vento faz a curva ou, como dizem os mais cáusticos, onde o capiroto perdeu as botas. Lá, quem governa são os cornacas. Eles conduzem o paquidérmico reino com uma vareta que está sempre em punho, orientando o seu lento caminhar.
No inusitado reino, a vida dos elefantinos está sujeita a uma lei que se sobrepõe à vida e à morte. Todos devem obedecê-la em fila indiana, unidos por trombas e rabos. Os cornacas são de uma região feudal do reino, acostumados a guiar elefantinos de tromba a rabo, através de muito circo e pouco feno, levando-os ao delírio ufanista de pertencerem à cidade cultural de Elefantolândia.
Os elefantinos do leste rebelaram-se, torceram o rabo, bramiram, agitaram-se na defesa de condições dignas de trabalho e mais ração. Os cornacas, devido à tradição feudal, não tinham trato político com a diversidade paquidérmica, tratando-a com métodos antigos de domesticação. Achavam que a vareta era suficiente para dissuadir a insatisfação; ou que a frieza pétrea de uma lei fosse convencer toda uma geração de injustiçados.
Elefantina está em crise, carece de um gabinete político suprapartidário para dirimi-la, criar e promover recursos para o desenvolvimento social, longe da influência política da tecnocracia e dos burocratas. Acabar com as pensões inconstitucionais dos ex-cornacas, denunciar e acionar os devedores do banco de Elefantina e apurar as despesas mamuteanas dos órgãos públicos.
O reino de elefantina é muito curioso, diz cumprir a máxima do general Pompeu. Vejamos em que circunstância se tornou célebre a frase do general. Naquela época, era comum o exército vencedor ficar com o botim da guerra disputado entre a soldadesca através do duelo. Para impedir a desordem na tropa, Pompeu decretou que todo soldado que matasse outro, em disputa por botim, seria condenado à morte.
Certa vez, seu ajudante de ordem o procurou afirmando que um soldado tinha sido morto por motivo de despojos de guerra. O general foi claro:
– A lei!
O ajudante de ordem replicou:
– O assassino é seu filho.
Respondeu o general:
– Dura lex, sed lex! (a lei é dura, mas é lei!).
Os cornacas têm reserva moral em relação à essência dessa máxima universal? Ao desprezar as necessidades básicas dos elefantinos para investir no supérfluo, estão mais para Heliogábulo do que para Pompeu.Os cornacas alegam não poder atender às reivindicações trabalhistas de uma minoria de elefantinos, enquanto existe uma manada de mais pobres; são três milhões, cento e sessenta e oito mil, cento e trinta e três, para serem atendidos. Infinita a esquizofrenia do poder ao fazer distinção entre miseráveis. Todos são vítimas da exploração e opressão do Estado mínimo. É desejo dos elefantinos que os cornacas, além de parecerem, sejam honestos e populares.
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Acompanhando a CEI dos Contratos
Aos cinco dias deste mês de setembro, a juventude de Natal se organizou através das redes e mídias sociais para apresentar uma pauta de reinvindicações aos vereadores e protestar contra manobras políticas que visam obstaculizar as investigações da CEI dos contratos administrativos da gestão Micarla de Sousa.
O que ocorreu foi um protesto pacífico e bem humorado, que utilizou a mística e o lúdico como um instrumento político. Manifestantes armaram barracas às portas da CMN para lembrar os onze dias de ocupação que acarretaram o estabelecimento de investigações, realizaram um sepultamento simbólico da gestão municipal, entoaram palavras de ordem.
Ocorre que o livre trânsito de populares nas dependências da Câmara Municipal de Natal foi proibido, ao arrepio das normas Constitucionais que garantem a livre manifestação de pensamento. Ainda mais, os manifestantes foram ofendidos por a guarda legislativa e por sua chefia, um tenente coronel da polícia militar.
Manifestantes chegaram a ser mantidos em cárcere privado nas dependências da casa, enquanto do lado de fora outro grupo se recusou a protocolar a pauta de reinvidicações em qualquer lugar senão a casa do povo, a Câmara de Vereadores.
Tais fatos ocorreram no dia em que o Ministério Público abriu investigações sobre um escandaloso contrato de aluguel efetuado pela gestão municipal, que teve uma licitação direcionada (único imóvel na região capaz de cumprir com os requisitos do certame licitatório), e que beneficiava parceiros políticos da Prefeita.
Após mais de quatro horas de espera, com a intermediação da Ordem dos Advogados do Brasil e de entidades de direitos humanos, os manifestantes conseguiram protocolar as suas reinvindicações, no pátio da Câmara Municipal.
Os manifestantes não temem a opressão, e sentem bastante prazer em incomodar a incompetente gestora, assim como seus inoperantes aliados na Câmara Municipal. “Até que tudo cesse, nós não cessaremos!”.
A seguir transcreve-se a pauta de reivindicações:
“Natal, 05 de Setembro de 2011
O Movimento #FORAMICARLA vem a público, a Câmara Municipal e aos vereadores e vereadoras integrantes da CEI apresentar uma pauta de reivindicações a respeito do andamento da CEI dos Contratos instalada a partir do acampamento #PRIMAVERASEMBOBOLETA.
- Calendário com as reuniões da CeI divulgado ampla e publicamente;
- Reuniões abertas à população;
- Transmissão das reuniões da CEI pela TV Câmara;
- Audiências públicas mensais para a apresentação de relatório com o avanço das investigações da CEI;
- Realização de uma audiência pública com o Ministério Público a respeito da documentação entregue pela Prefeitura Municipal do Natal;
- Autorização da entrada d@s integrantes do #ForaMicarla que estiverem com seus cadastros no banco de dados da Câmara, como todo e qualquer cidadão, para que assim não ocorra como sempre, os atos de truculência da Guarda Legislativa Municipal, sob o comando de um tenente coronel da PM (João Nogueira) que demonstra-se totalmente despreparado para o exercício da função.
E comunicamos que a partir deste momento nós também estaremos “desenterrando” a Operação Impacto e solicitamos a atenção e compromisso de tod@s com a justiça e combate a corrupção em nosso município.
Documento encaminhado à:
Júlia Arruda, Sargento Regina, Júlio Protásio, Chagas Catarino e Adenúbio Melo
Marcadores:
#foramicarla,
#primaverasemborboleta,
#RioGrevedoNorte,
#xoinseto,
Cei dos contratos,
Julia Arruda,
Micarla de Sousa,
Sargento Regina
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
#FORAMICARLA: A INDIGNAÇÃO DO POVO POTIGUAR
No decorrer dos últimos dois anos de nossa cidade, chegamos ao auge do desgoverno, nunca se viu na administração pública natalense, tamanha incompetência e descaso com os demais serviços públicos. A Prefeita eleita em 2008, Micarla de Sousa do PV, insiste que a cidade é sua propriedade particular, onde só ela e sua cúpula de corruptos (inclusive, muitos deles vereadores envolvidos na operação impacto e ainda impunes) podem beneficiar-se dos recursos públicos e que seu mandato é um cheque em branco e que todos(as) os(as) natalenses terão que se sujeitar ao abandono e a espoliação por parte dos seus representantes, uma vez que os elegeram “democraticamente” pelos seus votos na última eleição.
Nós, povo Natalense, estamos condenados em nosso dia-dia a inaceitável constante violações de direitos: as nossas crianças e jovens enfrentam grandes dificuldades para ir e se manter nas escolas, visto que não existem vagas, nem professores(as) suficientes, e nem condições de trabalho adequadas. Muitos alunos frequentam as escolas apenas para se alimentarem e mesmo assim, muitas vezes se frustram com a falta de merenda; o transporte “púbico” é uma vergonha, somos obrigados(as) a utilizar ônibus lotados, que demoram a passar, em paradas sem o mínimo de segurança, com o preço da passagem caríssimo e abusivoAZ\X, acima das tarifas nacionais de transporte público; quando ficamos doentes, temos dificuldade em encontrar postos de saúde que funcionem de maneira eficiente, com remédios, médicos(as) e enfermeiros(as) em número que garanta um bom atendimento; Nossas ruas, embora de diferentes localidades, convergem em pontos comuns: lixo por todos os lados e buracos por todas as partes; Vivemos aflitos com a gritante falta de segurança, assaltos e homicídios fazem parte do nosso cotidiano; A juventude ociosa: sem emprego, sem lazer, sem esporte e sem cultura torna-se presa fácil do crime e do tráfico de drogas.
Chegamos a uma situação calamitosa, onde aquele(a) que não têm condições econômicas para comprar e garantir os seus “direitos” estão morrendo antes de ter finda sua existência, pois viver não é apenas acordar a cada dia, mas sim ter uma existência digna e saudável, no gozo de seus direitos fundamentais. Nossos representantes eleitos, tal como a prefeita Micarla de Souza, não se sensibilizam com a degradante situação, pois não se colocam na condição de igual com aqueles(as) que a elegeram, pelo contrário, incorporam o princípio da falsa superioridade e usam da máquina estatal exclusivamente para garantir seus privilégios e interesses particulares, esquecendo ou deixando de lado o bem-estar coletivo. A atual gestão municipal bate rercord em quebra de licitações, troca de secretários e escândalos. Contratos de aluguéis superfaturados, copos descartáveis a preço de louça imperial, lavanderia pública fictícia e zoológico imaginário fazem parte da gama de escândalos rotineiros.
Por outro lado, no falacioso mundo mágico da borboleta, produzido pela mídia publicitária da prefeitura, arcado com excessivos gastos de dinheiro público, vivemos em uma Natal da fantasia, em que tudo é lindo e maravilhoso, onde toda a população está satisfeita com as suas ações fictícias, uma vez que todos(as) os cidadãos(ãs) têm o pleno acesso a segurança, saúde, moradia, lazer, cultura e educação de qualidade, visto que a prefeita “trabalha aqui e trabalha agora”.
Entretanto, voltando ao mundo real, dos que soam e sangram, dos estudantes, dos trabalhadores(as), daqueles(as) que têm que trabalhar duro para garantir o pão de cada dia, nesse mundo real marcado pelas desigualdades, injustiças e exclusão social à insatisfação do povo natalense com a atual administração municipal cresce de forma exponencial, produzindo um sentimento de revolta e indignação no seio do povo potiguar. Estamos em um momento de intensa reflexão crítica, sobretudo, naqueles(as) que elegeram a atual prefeita no 1ºturno, que agora se perguntam se realmente votaram certo e, se não, como fazer para acabar com esse tormento.
Diante de tamanha incompetência, falta de seriedade, falta de responsabilidade e falta de compromisso com aqueles(as) que a elegeram, surgiu legitimamente o movimento #FORAMICARLA: na luta pela dignidade do povo potiguar, inspirado no espírito do tempo mundial de desmoralização da democracia representativa, as palavras de ordem ecoam tanto aqui como lá no Egito, na Espanha, no Chile, na Grécia e por todo o planeta: “ELES NÃO NOS REPRESENTAM!”
Organizado e articulado, principalmente, pelas redes e mídias sociais, o movimento #FORAMICARLA ganhou força nos ciberespaços e evoluiu rapidamente. De forma irreverente, marcado pela horizontalidade, pluralidade e auto-gestão o Movimento uniu trabalhadores(as), estudantes, apartidários e partidários, socialistas e anarquistas, “istas” e “não istas”, estimulando a construção de uma consciência crítica entre as pessoas, numa militância plenamente pacífica e cidadã. Rompeu significativamente com a apatia e a inércia do povo natalense. A quem diga que para entrar no Movimento “basta um pulo, e quem não pula quer Micarla”.
O #FORAMICARLA de maneira espontânea ganhou as ruas. O primeiro ato aconteceu em frente ao shopping Midway, no dia 25.05.11, superou as expectativas, com aproximadamente duas mil pessoas, mostrou a grande força por parte do Movimento nascido na internet. O segundo ato foi ainda maior, no dia 01.06.11, uma grande marcha num percurso de aproximadamente 10 km com mais de duas mil pessoas pelo asfalto no complexo viário. Já o terceiro foi decisivo, dia 07.06.11, diferente dos atos passados, ocorreu durante o dia, pela manhã, na chuva, com bem menos pessoas, contudo, esse ato gerou um dos episódios mais marcantes da história de luta do nosso povo guerreiro, a ocupação na sede do Poder Legislativo, que ficou conhecida como acampamento “Primavera sem Borboleta”.
Foram 11 dias de muita luta, suor, lágrimas e glórias, provando de fato que a Câmara Municipal é a casa do povo, que quando é preciso o povo vem e fiscaliza. O acampamento tinha como lema “ocupar, resistir e produzir” e era organizado em várias comissões (jurídica, segurança, comunicação, cultura, limpeza, financeira, alimentação e outras). Os primeiros gastos do acampamento quanto alimentação foram custeados pelos próprios acampados, mas rapidamente a sociedade (sobretudo os sindicatos, professores(as), estudantes, trabalhadores(as), MST e MLB) se solidarizou com os companheiros(as) de luta. O objetivo do acampamento na Câmara Municipal de Natal era exigir que os vereadores cumprissem o seu dever constitucional de fiscalizar o Poder Executivo. O #FORAMICARLA exigia como pauta principal uma Comissão Especial de Inquérito limpa e transparente, que não violasse o art. 37 da nossa louvável Constituição Federal de 1988.
Inicialmente, as mídias burguesas com o intuito de dar manutenção aos interesses daqueles que os financiam, tentaram sabotar a todo custo o Movimento #FORAMICARLA, distorcendo e omitindo as informações acerca dos reais acontecimentos do acampamento, chegando até a implantar drogas na ocupação para ferir a reputação do Movimento. Contudo, se os jornais tradicionais são dos políticos e “poderosos”, o twitter e as demais redes sociais são nossas. Não demorou muito para o “Primavera Sem Borboleta” ganhar todo o apoio da população Natalense e repercutir por todo Brasil, ganhado até edição diferenciada em revistas de grande comprometimento com a verdade, tal como a Carta Capital que destacou em sua matéria “Primavera Potiguar” o #FORAMICARLA como um dos movimentos sociais, nascido na internet, mais expressivos do país.
Depois de esgotar todas as possibilidades de usar a repressão e truculência policial com os manifestantes, os vereadores tiveram que ceder após decisão do STJ e assinar acordo com os membros do acampamento na presença do Ministério Público Estadual, OAB e Conselho Estadual de Direitos Humanos, atendendo todas as reinvindicações do Acampamento Primavera Sem Borboleta.
Essa vitória do povo potiguar foi uma simples amostra do poder popular, que mostrou aos descrentes da luta que vale a pena lutar, pois nesse episódio o(a) cidadão(ã) comum provou que também é protagonista de sua história, que fatores condicionantes não são poderes determinantes, que a realidade é essa, mas poderia ser outra bem diferente. Como dizia o grande sábio Paulo Freire: “O futuro não nos faz, nós é que o nos refazemos na luta para fazê-lo”.
A luta, portanto, continua. Mas agora, sabemos na práxis que “o povo unido jamais será vencido”, juntos andamos bem melhor. Nesse momento a Primavera Potiguar encontra-se nos diversos bairros da cidade, ouvindo aqueles que realmente aprendem pelas vias do corpo, sentido todo esse desgoverno na pele. O #FORAMICARLA tem a clareza e a consciência que existem outras lutas a serem travadas, algumas muito mais difíceis que esta na qual estamos engajados, pois não basta tirar Micarla, Paulinho ou Edivan Martins, vai além, a luta é por uma nova sociedade, sobre novos alicerces ideológicos, sem opressores nem oprimidos, em que os homens e as mulheres possam caminhar como iguais que são, e que possam ser respeitados pela condição natural de ser humano portador de dignidade, e não meramente por sua condição econômica como o que está posto hoje.
Nesse sentido, convocamos todos(as) os(as) que sentirem-se contemplados(as) pelas palavras e pelas ações do #FORAMICARLA a juntarem-se a nós, numa militância plenamente cidadã e democrática, na luta por nossos direitos, pela livre expressão de idéias, na denúncia contra as oligarquias, contra qualquer tipo de discriminação, injustiça, exploração e opressão, pois “ATÈ QUE TUDO CESSE, NÓS NÂO CESSAREMOS”.
Atenciosamente,
Gregório Bezerra Silva
Graduando do 5º período de Direito na UFRN
Coordenador de Articulação Política do Centro Acadêmico Amaro Cavalcante
Membro do programa em direitos humanos Lições de Cidadania.
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Eu me organizando posso desorganizar
Depois de um bom tempo de apatia política a juventude natalense insurge no cenário político local se propondo a discutir e intervir no rumo que a Capital Potiguar deve tomar. Motivada pelo descaso, além das várias denúncias de corrupção que assolam o governo da Prefeita Micarla de Souza (PV), a qual passa por um momento muito delicado, haja vista o total fracasso de sua gestão, facilmente identificado pelo mais desatento olhar de qualquer leigo. Em conseqüência têm-se não só a organização dos jovens, mas também a pressão política de partidos de oposição, de sindicalistas, não esquecendo aí, apesar da cultura política local ser passiva, a participação da sociedade civil como um todo, que cobra do governo Micarla uma postura mais humana e participativa com intervenção eficaz e inovadora, como assim havia sido prometido na época da campanha.
Nesse contexto de mobilização popular, os jovens que, diga-se de passagem, representam em boa parte a classe média natalense, articulam uma “nova forma de lutar por seus direitos” e, de levar toda essa motivação as classes menos favorecidas. Aqueles que historicamente são excluídos do processo de discussão política. É bem verdade que no início desse debate surgido nas ditas redes sociais: Twitter; FaceBook; Orkut e Blog´s, acreditava-se na inauguração de uma nova forma de se fazer política, cuja prioridade forjava-se na horizontalidade, na democracia real e no coletivo, em si, como instrumentos de organização e deliberação do movimento instituído.
A principio, já visualizava que esse movimento, que se propunha enquanto um instrumento mobilizador das massas populares da cidade, era na verdade um movimento apaixonado pelo o que se via nas linhas gerais de sua essência e efervescência: “a luta contra Micarla” e, assim sendo, com este único propósito, objetivava a conquista de corações e mentes desembocando na mobilização das camadas mais pobres da nossa sociedade potiguar. Erro notório! Entretanto, sabiamente os participantes do #foramicarla sentiram a necessidade de aglutinar e expandir mais as informações, dizer a sociedade o porquê de tantos jovens irem às ruas semanas seguidas culminando na ocupação da Câmara Municipal da Cidade e fazerem tanto barulho. Importa lembrar que esse movimento, ainda que, com muita dificuldade, conseguiu romper barreiras tradicionalmente impostas à juventude. O #foramicarla mostrou que a causa pode superar picuinhas como a participação conjunta de juventudes partidárias, apartidárias e anarquistas debatendo e construindo alternativas possíveis e viáveis para a organização da luta popular.
A partir de então, verificou-se o que poderíamos chamar de “choque cultural”, e como dito acima, esse movimento com a cara da juventude classe média, indignada, por, pela primeira vez, sentir-se atingida pelo total descaso do poder público local. Ressaltando que não se trata do descaso com o social, antes, pelo contrário, se trata de descaso estrutural, que vai desde ao não calçamento de ruas, passando por inundações nos bairros nobres e buracos no asfalto, os quais atrapalham, por vezes, o fluxo de veículos no trânsito, além de ocasionarem furos nos pneus, quebra e/ou empenação de eixos dos carros da nossa classe média. Todavia, com o choque cultural através da aglutinação das várias juventudes já citadas, o cenário das indignações foi se transformando, se desprendendo das necessidades puramente individuais que estavam em jogo. Com o advento das manifestações, bandeiras de lutas foram se agregando à luta desses jovens, como exemplo a CEI dos contratos, além de se pautar a construção da mobilização dos setores e áreas potiguares mais vulneráveis como as zonas norte e oeste da Cidade.
O movimento ora falado, visivelmente, levou muito tempo para conseguir chegar até as camadas mais pobres, não sendo preocupação desse texto as diversas justificativas que levaram a essa intempestividade, ao contrário, esse ordenamento de palavras busca tão somente destacar e aplaudir a possibilidade concretizada de registrar experiências marcantes de pessoas que nunca tinham “atravessado a ponte” e após tal ação possibilitada pelo movimento, afirmar que depois do ato ficaram apaixonadas pela Zona Norte, que se impressionaram com a receptividade desse povo tão sofrido que encantam com os relatos e a vontade de também abrir sua garganta e soltar o seu protesto somando-se ao movimento, que dessa vez assume outro viés.
Até então, só se falava em buracos, CEI´s e #foramicarla. Agora já se ouve: onde estão os postos de saúde? Porque estão fechados? Onde estão as escolas prometidas? Reivindica-se também segurança e habitação, se denuncia os conselhos corruptos que não articulam nada em benefício de suas comunidades, a falta de transporte digno e etc. O que se vê de fato, atualmente no movimento é a inversão de valores em que se pauta como central a questão das políticas públicas de qualidade com foco na dignidade da pessoa humana a partir de uma sociedade mais justa e igualitária, em que se prioriza a discussão dos problemas sociais partindo das necessidades das classes mais populares até às das classes médias.
Destarte o avanço identificado ao longo do processo por que passou o movimento, alguns vícios ainda precisam ser extirpados, quais sejam: a realização de atos de cima para baixo em comunidades em que não se conhece a realidade cotidiana vivenciada por seus habitantes; a visão equivocada de que tudo tem que ser definido em plenárias constituídas em sua maioria por aqueles e aquelas que tiveram condições objetivas e subjetivas de acamparem na Câmara Municipal de Natal; o entendimento errôneo de que o #foramicarla nada mais é que o somatório irrisório daqueles e daquelas que articulam tais plenárias e a falta de entendimento, por vezes, ainda que não tão freqüente, da importância de nesse momento aglutinar todas as frentes de luta como sindicatos, juventudes partidárias, juventudes não partidárias, estudantes, trabalhadores e trabalhadoras da cidade, sociedade civil organizada em torno de uma pauta unificada.
A guisa de conclusão, imprescindível se faz compreender que o movimento que surgiu no berço da classe média, não só pode como deve assumir novos horizontes, chegar à boca do povo, se unir as necessidades mais diversas do povo natalense. A concretização dessa realidade passa por assumir uma nova plataforma política, que exclua os oportunistas que tentam de forma camuflada se apropriar do movimento e construa uma cultura diferente em que possibilite a participação popular, que desperte nas pessoas que antes só viviam para o trabalho na busca de suprir suas necessidades imediatas a crença na importância de se organizar e lutar, pois, como bem diz Chico Science eu me organizando posso desorganizar, e só assim organizados, conseguiremos desorganizar toda essa sujeira que há muitos anos assola nossa cidade. O movimento não pode ter como objetivo central derrubar Micarla, pois existem vários picaretas nessa cidade iguais ou até piores que ela, estando apenas a postos, à espera de sua vez para detonar a cidade e os interesses do seu povo. A luta tem que ser proposta na perspectiva da construção de uma nova cultura política, que consiga contribuir para a livre organização nos mais diversos setores da sociedade e que dessas organizações surjam as correlações de forças necessárias para as mudanças que precisamos.
Altanir Morais, 25 anos, morador da ZN, ex dirigente da UBES, APES e UMES
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